sábado, 20 de fevereiro de 2010

A Loucura e o retrato


Numa cabeceira ali jaz ele,
Cor desbotada e moldura sem brilho.
Era a bengala para aquele homem...
Será que o fazia mas forte?
Ou fraco talvez?!
Mas era a ele que toda noite beijava.
Como aquela mulher de outrora.
Acreditava piamente;
Que todas as noites dormiam juntos.
Chegava a sentir seu cheiro empoeirado.
Sua mente recusava-se a enterra-la.
Sua sanidade a santificava;
E a loucura a enquadrava,
Trancada num retrato.
Ao lado de sua face;
Hora confundiam-se nos disfarces.
Se esse homem contempla a vida?!
Ele faz muito mais que isso...
Ele a eternizou de tanto amar!
Chego a pensar, se retratos deveriam existir...
Simples pedaços de lembranças;
Que muitas vezes são fios de vidas.
Vidas que será que não existem realmente?
Nos porta retratos tornam-se tão reais!
E a felicidade escoa como numa ampulheta.
Mas se estiver errada?
E a felicidade for a enquadrada?
Não ficarei para saber;
O meu tempo é curto diante da eternidade.
Não guardo retratos, alias não gosto de fotos.
No espelho da vida fitei o olhar desse homem;
Nos confundimos em sobreposições de imagens.
Não quero estar também enquadrada ao lado dele!
Nem ser a ele...
Quantas vidas se confundem diante do espelho?!
Minha sanidade deu lugar a liberdade da loucura;
E nela escuto Deus.
Voo em pensamentos...
Desmancho-me em lágrimas de emoção.
Todos os dias, uma nova canção.
Só peço um favor...
Não fotografe esse momento!
Ele não caberia em uma moldura.

Marta Vaz

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Natural


Cheguei a esse mundo sem vestes
Sem saber falar e com tão pouco enxergar
Mas a cada gesto sorria ou chorava

Esse era meu canto,
a forma de dizer ao mundo estou viva.
Crescendo percebi além das fronteiras do quintal

Pela janela via a chuva cair
Encantava-me com as gotas na vidraça

Tentava contá-las e acabava sorrindo por perder a conta.

O mundo era tão natural!

Tão grande o céu!

Tão salgada a lágrima!
Assim como a água do mar que nunca esquecerei.

Tentei descobrir o caminho para a china

Levei uma surra por fazer buracos no quintal
E hoje minhas lágrimas são de alegria

Fui criança, vivi um mundo mágico!

Trago nas mãos o perfume das flores do jardim

Nos cabelos o cheiro do mar

E no peito o amor

Tenho as pintas de um dia forte de Sol

E a certeza do muito que vivi.
Não sei se serei tão grande quanto as minhas experiências

Mas sou experiente o suficiente
para saber que sou única para Deus.

Marta Vaz

Espelho meu

Nua ao espelho Vejo os olhos que um dia fitaram os seus  As mãos que ao microfone disseram tanto O tanto que você não ouviu Aquele mesmo que...