sábado, 26 de dezembro de 2009

O nu


Por que o corpo nu causa tanta polémica ou espanto?
Nascemos nus e nos vestimos para proteção.
Nos banhamos nus para remoção das impurezas.
O corpo nu é o natural dos seres;
É o puro.
Nossa essência humana é nua.
Quanto mais valorizamos o nu,
Inversamente é a distância da evolução intelectual.
Quanto menor a assimilação da civilidade,
maior a necessidade da fluência da libido.
Quando o homem domina seus instintos,
deixando o intelectual aflorar,
notória será a evolução intelectual da sociedade.
As Artes já se utilizavam do nu como expressão da beleza.
Mas não encontraremos no berço da cultura artística o apelativo.
Se prevalecer da expressão nua do corpo para denominar arte,
ao meu ver é simplesmente nivelar por baixo quem aprecia uma boa arte.
Existe uma diferença entre o nu como expressão e o erotismo.
Fazer do nu expressão erótica crua e chama-lo de arte
é aproveitar somente a parte instintiva dos que infelizmente estão em maioria.
Qual é a verdadeira necessidade dos seres humanos explicitarem suas preferências sexuais?
E por que tantos aplaudem essa exposição, sabendo que seus desejos são voláteis?
A medida que um artista se expõem maior será sua distância dos que a ele aprecia.
Os que mais usam e abusam da libido, são os que maior número de seguranças vão possuir.
Desejar uma pessoa por ser instigante é um preço muito alto;
quem o faz cria um envolvimento psicológico deletério, sofre, chora e ainda diz ser amor.
Será que realmente existe espaço para o amor, onde só se deseja momentos?
O nu hoje é sinonimo de sexo, libido, desejo, erotismo e satisfação do momento.
É o retorno ao instintivo, ao primitivo é aculturar.
Mas como ser diferente quando a intelectualidade é só para os privilegiados?
Enquanto o apelativo se vende e se compra muito,
sustentamos a desigualdade intelectual e social cronica de um país.

Marta Vaz

domingo, 20 de dezembro de 2009

Movimento e sentimento


Seguro o choro
Na garganta embargado está um nó
Tudo que engulo arranha ao passar
Não nego minha dor, a saudade.
Tenho pressa, o trem não para;
Olho miragens em outros olhos.
Jogam com o amor,
como as migalhas aos famintos.
Sinto fome de amor...
Mas não aceito as migalhas, as sobras.
Pois quem vive no amor se completa,
não se despedaça por momentos apenas.
Sinto o vento em meu rosto,
afagando meus cabelos.
Sinto cada pêlo do meu corpo arrepiar.
Vi o mar, e tantos homens a beira d'água,
Senti a paz de Deus se instaurar em mim.
Desejei mais amor...
E a lua estava fria como o vento;
Meu coração quente, acelerado...
Por momentos pensei no caminho.
Mas a distância se agigantava sem parar.
E o trem parou, senti calafrios de dor;
As lembranças eram inevitáveis.
E o tempo não parou;
Só minhas pernas tremulas de pavor.
Mais uma vez o sonho acabou, mais uma vez passou...
E o que resta é a esperança que as rosas voltem;
Que o perfume se espalhe no ar.
E que eu não fique parada na estação.
Sou puro movimento,
Até quando Deus quiser.

Marta Vaz

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Inspiração e o silêncio


Guarda contigo a raiva retida,
O nó na garganta
A flor escondida.
Guarda contigo tudo que fui.
Uma artista, uma anónima;
Uma pessoa apenas risonha.
Guarda também aquele meu sorriso,
Que de improviso se fez canção.
Guarda meu coração?
E se ainda der, o meu silêncio...
Guarda como numa melodia!
Escute-o e faça uma letra,
Para não esquecer quem fui;
Ou se realmente fui alguém para você.
Guarda, esconde minhas fantasias,
Minhas ironias tolas, infantis.
Guarda meu matiz, minha pele.
Minha roupa, que um dia provocou aplausos.
Mas hoje sou eu quem vou aplaudir;
Por tudo que me fez ouvir,
Ler, escrever e provar.
Aliás nada tenho o que provar...
Só a mim que ainda existo,
No silêncio das palavras escritas, insisto.
Derramar-me em pura inspiração.

Marta Vaz

domingo, 29 de novembro de 2009

Do amor...


O amor. Oh! O amor, sendo tão profundo quando findo que pela própria fragilidade se apresenta, diante da majestosa presença que de tão forte nos faz tremer.
Quem diante do amor já não se viu perdido?
Quem diante dele nunca derramou lágrimas?
Mesmo dor ou quem sabe alegria?
Nos misteriosos caminhos do amor, existe realmente perdedor?
Sofredores são inerentes, quando findo por uma parte apenas.
E ainda existem os que sentem em absoluto silêncio os presságios dos amores febris.
Oh! Calor abrasador que descongela um olhar de desprezo, em tudo se acredita poder mudar.
Mas quando no silêncio das horas cresce a solidão e o desejo
Ilumina-se as paredes frias de um quarto e se percebe a ilusão nefasta.
Afasta-se nefasta companhia, que fez dos meus dias, noites sedentas
Afasta essa sede de amor, que pela fragilidade da dor fez a entrega ser total.
Quero e não nego o amor...
Quero poder sentir o cheiro inebriante, provocante.
Seu jeito manso quando chega devagar, despindo meus sentidos
Roubando gemidos e que depois faça o silêncio
Para que só os olhos sintam e da boca não saia o profano
Se o amor for insano? Que a beleza da arte pelo amor nunca parta sem que se faça plena.

Marta Vaz

sábado, 21 de novembro de 2009

Sedução





















Seduzo sim
Sem piedade, bem cruel.
Devoro todo o mel,
Nas ondas loucas do prazer,
Desse mar de ilusões.
Mas quero banhar-me inteiro,
Agarrar-me aos seus apelos;
Contemplar seu corpo nu ao espelho,
E gozar tudo que a vida, tem a oferecer.
Quero toda a renuncia;
Aquela diante aos prazeres do desejo.
Ouvir besteiras, afogar-me em beijos,
Desatinos ou disparates.
Gritos, gemidos de êxtase e dor,
Para suar todo o prazer,
E refrescar-me em amor.
Sedução,
Não posso acreditar que seja engano;
Pois viver a loucura deste plano,
Não foi ao acaso.
Você é quem tanto procurava,
Entre suspiros suplicava,
Agora, somos apenas um.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Concatenar

Para se concatenar não basta juntar
Nem tão pouco comparar
Para assim compor
Necessita de vislumbre
De boa vontade também
Pois quem concatena
Vive a proeza de mais alguém
Não se concatena sozinho
Pois necessita de um caminho
Cheios de argumentos, pensamentos e ideais
Na semântica do verbo
Seu tempo é pretérito triunfal
Seu modo importa a quem o faça
Concatenar por si é realização
Movimento ou ação
Não espere paciência
No desejo de concatenar
Desfrute da intensidade
Ou da própria intenção
O que não cabe nessa hora
É falta de inspiração
Concateno com juízo,
Mas as vezes sem miolos também.
O que mais vale a pena,
É nunca deixar de fazê-lo por desdém.
Então concatene na vida
Que seu mundo será mais além.
Marta Vaz

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Amor e sofreguidão


Nua sob o luar claro;


Suave voz de cor cristalina.


Nossas vezes raras porém intensas.


Cálido silêncio, provocante.


Delírios febris;


Calafrios, suores frios...


Não saberia nunca, se não provasse.


Prova de fogo e dor;


Indispensáveis para ferver nesse amor.


Tudo se faz manso madrugada a fora.


Repousar sob seu peito;


Enquanto no mundo está o burburinho lá fora.


Estive em seus passos, sem ser notada;


Vivendo desacompanhada,


E acompanhando cada nota que emitia.


Infiltrada nas entranhas de sua tez.


E no agora outra vez;


Caminhando a passos calmos,


Uma espera longa aos desejos meus.


Suave a volúpia do encontro, tão natural!


Mas nada foi igual, ou talvez sim?


Iguais somos nós em corpos tão diferentes!


Nas vontades, na coragem e mágoas também.


Talvez ninguém possa saber...


Ou será que todos já sabem?


Acredito que não.


Sua boca devora o que separa,


Enquanto expele a mentira convincente.


Será que verdadeiramente não sente?


Ou foi mais uma de suas fugas?


Estratégia de mudas ilusões.


Mas o que aquece também pode queimar;


E nas marcas eu vou estar.


Assim quando fitares o espelho


Ou em qualquer direcção a esmo,


Saberá exactamente onde colherá as flores,


E onde estarão os espinhos do caminho.


Estarei talvez só ou muito bem acompanhada;


De uma solidão rara...


Sofreguidão das pausas de uma canção,


Que eu mesma compus.




Marta Vaz


Espelho meu

Nua ao espelho Vejo os olhos que um dia fitaram os seus  As mãos que ao microfone disseram tanto O tanto que você não ouviu Aquele mesmo que...