quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Mimetismo


O mimetismo em mim aflora, a fora por fora.
Quanto vale o amor?
Melhor que se cale,
Deixe que a saudade fale.
Marta Vaz

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Abandono


Não quero falar das flores
Nem de amores que senti só.
Não quero sentir mais fome, que não sinto só.
Nem quando aparecerem as dores, imperceptíveis aos que não as têm.
Quando veio a liberdade, provei seu preço.
Hoje sei que não é totalmente livre quem simplesmente vive.
Não quero lembrar dos pedintes;
Mendigam pela fome do corpo, não conhecem amor.
Jogaram a culpa toda neles.
Quem não conhece a falta, nunca poderá entende-los.
Nem a mim...
Quantos poderiam ser?
O quanto poderiam ter?
Tantos nem chegaram a nascer.
Segue a vida, a passos largos;
E a minha vida na contramão.
Quem diz conhecer o avesso mente.
Quem mente entrega a própria dor.
Quanto mais fraco, mais rápido será devorado.
Seja hoje ou um pouco mais a frente.
Não me apresente a essa gente!
Já estou farta de tanta desilusão.
O que mata não é o que vejo,
É o que não percebo.
É o que na verdade não deixou de existir
E afoga a existência num parecer de que nunca há o que padecer.
Prefiro o abandono as mãos levianas,
Dizer não aos que pensam que enganam.
Posso nada ter, mas muito sinto
Não troco-me como ao troco do que sobra.
Se eu não puder esperar nada da vida
Serei ela até quando esse nada se findar.
Marta Vaz


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Provocante


Certos momentos gostaria de gritar para o mundo,
Mas logo volto a perceber que no silêncio se escuta muito mais.
Recobro minha louca lucidez.
Pálida porém cálida.
Prefiro o calar das palavras, o silêncio nos registros.
Admirar o barulho provocando mentes.
Perceber o brilho em olhares alheios.
Quanto mais alheios maior o encanto,
Sem tempo para poses.
Falsos momentos.
Não precisa falar.
O sentir já disse tudo.
Êxtase indescritível!
Seria indecente até imoral,
Se não coubesse puro amor.

Marta Vaz

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Rosas Chá



Existe explicação?
O que é visto não é sentido,
Nada tem sentido?
E o que sinto?
Como diria o poeta Chico Buarque
"Será que ela é triste"
Será que é o contrário..."
O rosto que fita aos olhares alheios;
Alheia ao como toca,
Atenta a quem toca.
...Será que é loucura"
Será que é cenário..."
Quem realmente ela é?
As paredes escutam o que falo.
Calo algo em você?
Silêncio!
Alguém pode nos ouvir...
As fronteiras tão seguras,
Para o que deve parecer.
Mas o que exala é volátil,
Envolvente, inebriante.
Imponência e doçura,
Como rosas chá.
Nunca desejei andar com os pés no chão.
É perigoso ser feliz?
"...Será que é uma estrela"
Será que é mentira..."
O brilho no final do túnel?
Ou o segundo parto do "eu"?
Uma saída para o abismo.
Despedida para o recomeço.
Inevitável o confessar:
"E se eu pudesse entrar na sua vida"?!
Marta Vaz (Trechos da letra Beatriz de Chico Buarque)






quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O reencontro


Depois de algum tempo muitas mensagens recebidas.
Frases curtas, que diziam: Você não vem?
Sem retribuição pela atenção.
A insistência irrita-me.
Revolvendo a cidade,
Sem responder a perguntas.
Isso é muito invasivo e vazio.
Encontros constantes com invasões alheias cansa.
Caminhando devagar, não sou nem estou para alguém.
Uma anónima clandestina, como tantas.
Na beira da calçada remexo a terra que serve de piso.
Alguém se aproxima, passos lentos porém firmes.
Cabelos molhados, soltos e o vento levemente tocando-os,
Como a uma melodia.
Perfume que sinaliza antes dos olhos você.
Passadas alinhadas nada semelhantes aos cachos.
Parada frente a mim, de pé.
Novamente soltou a pergunta: Não iria me ver?
Sem respostas, nem os olhos ergueram-se.
O piso continuou a ser revolvido.
Grande ímpeto, abaixou para ver meu rosto,
Não existiu tempo para desviar o olhar.
Não vieram as palavras, só um terno e longo abraço.
Coração num pulsar "descompassado",
Ritmo acelerado e a paz deliciosa!
Desabar, render-se aos carinhos do outro.
Beijo não menos "frenético" do que o abraço.
Matamos a saudade...
Assassinato com absoluta certeza de absolvição.
Fim do reencontro a realidade.
Não se preenche lugar que já esteja preenchido.
Palavras em resposta ao não partir.
O amor tem dessas coisas,
Insano em sua essência,
Mas sábio em cada ato.
Não é mortal como nós,
Pode rondar por décadas e preencher-nos.
Indispensável que a lealdade a ele deva preexistir.
Marta Vaz




sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Movimentos


Hoje meus pensamentos tortos fervilham,
Estamos em ebulição, eu e minha mente.
Pode parecer loucura desconectarmos uma da outra.
Mas nem sempre sigo o que ela deseja,
Criei minha alforria;
Depois de uma vida inteira de modelos pré-definidos,
Maneiras e censuras, se deixar somos engolidos
Pensamentos como bocas lotadas de dentes afiados
E uma língua que não aquieta-se;
Basta um suspiro e logo ela vem dar suas opiniões.
E é poliglota, não se iludam, adapta-se a qualquer idioma.
Por isso sou adepta ao silêncio,
Nele sou eu quem penso e calo minha mente.
Os sentimentos fluem, isso é bom!
Vou deixa-los agora.
No silencio estou nem sempre muda,
Mas mudando sempre, pois a vida é isso.
Movimento.
Marta Vaz

domingo, 23 de janeiro de 2011

Quem somos?


Paredes nuas em nuance suave
Olhos vivos, especulativos..
Tudo é milimétrico escrito;
Num segundo sou como uma cebola,
As camadas caem uma a uma.
Formo um tempero com minhas histórias.
Vejo você cozinhando tudo em "banho-maria".
Não sei se sou eu quem sirvo ao seu paladar.
Será?
Numa postura segura, veste-se com uma capa grossa.
Até a alma está vestida.
Isso é o que deseja que eu acredite,
Sou cética e o conformismo não combina com meu ser.
Não corro e nem espero.
Hoje só observo cada movimento da vida.
Sou movida pelo amor;
Tudo que toca-me, fatalmente será meu foco.
Dos seus contornos faço meus traços;
Assim vou tangendo quem é você.

Marta Vaz

Espelho meu

Nua ao espelho Vejo os olhos que um dia fitaram os seus  As mãos que ao microfone disseram tanto O tanto que você não ouviu Aquele mesmo que...